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Pitty renasce mais combativa e vulnerável em novo álbum e se reapresenta com show lotado e enérgico em São Paulo 103

Cantora abriu os trabalhos da turnê “Pitty” no último sábado (17), um dia após lançar álbum homônimo
Foto: Reprodução/Fabrizio Martinelli

Na última sexta-feira (16), a cantora Pitty lançou seu 6º álbum da carreira, “Pitty”, após um intervalo de 7 anos do último disco “Matriz” (2019).

Após quase dois anos se apresentando com a turnê “ACNXX”, que celebrou os 20 anos de seu álbum de estreia “Admirável Chip Novo” (2003), com shows por todo o Brasil, o público ansiava por novidades da cantora baiana — sendo as últimas as 4 faixas que integram o EP “Casulo”, de 2022. O anseio dos fãs, porém, só não pode ser comparado ao da própria Pitty.

Podendo ser resumido à palavra “urgência”, o álbum “Pitty” é um tanto quanto diferente dos trabalhos anteriores da cantora. Musicalmente falando, resgata o “rock pauleira” do início, com riffs mais pesados de guitarra que reiteram a postura combativa da artista. Em termos de composição, revela ao longo das 13 faixas uma Pitty que abre o coração sobre feridas e intimidades de uma forma totalmente inédita.

A já conhecida “Sobremesa” abre o disco como um despertar, à primeira vista, da redescoberta do desejo e do prazer no âmbito dos relacionamentos amorosos; revelando-se, na sequência, um apelo para a necessidade de viver desesperada e insaciadamente. A “fome” do novo, no entanto, é acompanhada também por dúvidas e receios, como narra a seguinte “Armadura”: desacelerando o ritmo para uma das baladas do álbum, Pitty reflete sobre o paradoxo entre o impulso de se abrir para o novo e as dificuldades em deixar definitivamente uma zona de conforto após tanto tempo.


Para além da vontade de seguir um novo caminho, é preciso, acima de tudo, coragem. Assim, em “DESOBEDIENTE” Pitty declara aos outros e a si mesma — não por acaso, em letras garrafais — que nada deve ou vai calar a importância de questionar e combater as adversidades ou estigmas sociais. Ao mesmo tempo que nada “tem que ser raro nem raso”, em “Pileque de Poeta” a cantora intensifica, em meio a sutis solos de guitarra, os sentidos entorpecidos de “voltar à pista”, agora sob a perspectiva de uma mulher mais madura. Tal fato surge na mais pesada “Não à Deriva” sintetizando o fato de que, por trás da liberdade de se aventurar novamente, existe um filtro que impede aceitar (re)viver qualquer tipo de situação. 

Antes de dar continuidade à diversão dos casos e acasos de relacionamentos em “Sobriedade Seletiva”, que é marcada ainda pelo baixo como fio condutor dos singelos acordes de guitarra da melodia, Pitty quebra um pouco a narrativa com a sensível “Caminhada”, migrando para o âmbito dos relacionamentos femininos. Ao mostrar mais uma vez seu lado feminista e que defende os interesses das mulheres, a cantora destaca a importância da sororidade e do fortalecimento gradual de uma rede de apoio feminina, fazendo valer a máxima de que “a união faz a força” especialmente no verso final “onde a gente se planta, o medo não vinga”.

Se por um lado Pitty sabe olhar e fazer pelos seus (e suas), por outro, também não leva desaforo pra casa. Na sequência que se encaminha para o final do álbum, a cantora “bota pra fora” ressentimentos entalados em relação a certas situações. Apontada pelos fãs como uma diss track (ou seja, uma música que traz uma resposta a alguma situação específica ou alguém), “Amiga,” rebate uma antiga relação que ficou estremecida em meio ao famoso “tribunal da internet”, que passa a ser o protagonista na dançante “Madame”, em que Pitty reitera o valor de sua trajetória (mesmo que ciente de certos privilégios) diante de críticas infundadas e cujo único objetivo é disseminar o ódio virtual. Enquanto “Álbum de Casamento” finaliza oficialmente e em ritmo de blues um ciclo de quase 20 anos que, apesar de eventuais pesares, terminou de forma amigável — e com aquela que é descrita pela própria cantora como “sua alma preferida no universo” — Pitty fecha seu desabafo com “Prazer, Universo” mandando o recado de que, às vezes, a lei do retorno pode ser antecipada por vias humanas e, neste caso, por meio da música.

Depois da tempestade de sentimentos reprimidos, a calmaria chega por meio das últimas músicas do disco, que se revelam como duas das composições mais pessoais de toda a carreira de Pitty. Sem medo de mostrar sua vulnerabilidade, a cantora reflete em “Cuidada” como mesmo as mulheres mais fortes também precisam de colo e carinho, inclusive para se fortalecer e continuar seguindo em frente para desatar cada “Nó”, título da faixa que encerra a história contada pela cantora também como uma página em branco, aberta para recomeços em meio à conclusão de que bênção é termos a arte para nos expressar.

Levando sua nova “eu” de volta aos palcos, Pitty abriu os trabalhos da próxima turnê com um show lotado no Espaço Unimed, em São Paulo, na noite do último sábado (17). Sem esconder a emoção de se reapresentar ao vivo com as novas músicas e ainda mais após mais de um ano em hiato, a cantora mostrou-se bastante à vontade ao longo do show, dançando livremente pelo palco e dialogando abertamente com o público, desde interromper as performances para ajudar fãs em dificuldades, até relembrar a importância do voto e tudo que está em jogo para os brasileiros no 2º turno das eleições presidenciais, que acontece no próximo domingo, dia 25 de outubro.

Além de tocar todas as faixas do novo álbum, Pitty também não deixou de incluir no repertório os maiores sucessos de sua carreira, como “Admirável Chip Novo”, “Máscara”, “Memórias”, “Na Sua Estante”, “Equalize” e “Setevidas”. Surpreendendo os presentes ao cantar uma versão acapella de “Só Agora” (homenageando o cineasta Ricardo Spencer, com quem a artista havia trabalhado em diversos clipes e que faleceu em julho), Pitty finalizou o espetáculo de aproximadamente duas horas com o hit “Me Adora”, recebendo literalmente toda a adoração do público que ansiava por toda a potência e vivacidade que apenas a cantora sabe proporcionar.

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