
Na noite desta sexta-feira (25), o cantor Jão conquistou um novo marco em sua carreira ao abrir a turnê “Memórias Póstumas” com um show lotado no Nubank Parque, em São Paulo, e que marcou ainda seu retorno aos palcos após mais de um ano.
Se as expectativas dos fãs já eram altas, Jão conseguiu não apenas atendê-las, mas superá-las de formas inimagináveis. A começar pelos minutos que antecederam o show e foi revelado nos telões do estádio um pequeno teaser de “Jão: Memórias Póstumas”, novo documentário feito pela Netflix que será lançado na plataforma em dezembro.
Na sequência, após uma contagem regressiva de um minuto em meio a diferentes imagens nos telões, a surpresa se deu pela presença da atriz Isabel Teixeira no palco. Estrela da novela das 9 da TV Globo, “Quem Ama Cuida”, Isabel Teixeira surgiu inteiramente de preto (inclusive os cabelos, que atualmente tem dado vida à vilã loira Pilar Brandão) para abrir o show com um monólogo. Ao longo do espetáculo, a atriz ainda apareceria mais 4 vezes, revelando-se como a figura da Morte para fazer diferentes reflexões sobre a vida e sua finitude, acompanhada ainda por um dançarino caracterizado como lobo guará (em uma possível referência à era de 2018 que batizou o nome do fandom do cantor).
Abrindo o show com “Aurora”, atual música de trabalho de sua nova era, Jão foi recebido por um forte coro do público que, assim como um dos primeiros versos da faixa, “só queria ser feliz de novo” vendo o artista nos palcos novamente. Vê-lo ao vivo não apenas para apresentar as primeiras performances do álbum “Memórias Póstumas” — como “Jabuticabeira” e a faixa título, que se sucederam neste ato —, mas também músicas que marcaram os primeiros anos de sua carreira, como “Doce” e “A Rua”.
Em meio à excelente qualidade dos instrumentistas da banda, que abrilhantaram ainda mais as versões ao vivo das músicas — como o destaque ao piano e os arranjos de cordas em “Tudo Me Lembra” e o saxofone em “Eu Sempre Volto” e “Acontece” —, Jão também dedicou parte do show para tocar violão em algumas faixas, como “Por Você” e “Essa Eu Fiz Pro Nosso Amor”; podendo remeter ainda aos fãs mais nostálgicos a época em que começou fazendo covers no YouTube. Quando não estava com o violão em mãos, o cantor revezava sua entrega vocal ao jogo de corpo feito em conjunto com seus bailarinos, misturando referências artísticas a movimentos mais teatrais, com destaque para sua interação durante “O Arquiteto” com o dançarino caracterizado como a capa de “Memórias Póstumas”, e “Eu Sempre Volto”, em que Jão começou passando batom em frente a um espelho e terminou dançando colado com uma das bailarinas.
Outro show à parte das performances musicais deveu-se à estrutura da turnê “Memórias Póstumas”: trazendo um palco 360º, montado no centro do Nubank Parque, Jão enriqueceu a experiência ao adicionar luzes de LED e um espelho d´água de cerca de 30 metros de diâmetro no centro do palco, além de jatos de fogos interligados à estrutura (e que surpreenderam o público quando acionados pela primeira vez durante a tenra apresentação de “Literatura”), uma espécie de globo que emanava efeitos de luzes acima do palco e elevadores para parte de sua banda, e onde o próprio também era elevado em algumas músicas. Toda esta dimensão, cujo objetivo era tornar o show o mais intimista possível (nas palavras do próprio Jão) e aprofundar ainda mais sua conexão com os fãs, fez de performances como a nostálgica “Ainda Te Amo” e a festiva “Alinhamento Milenar” alguns dos momentos mais catárticos da noite.
“Eu morro de medo de vocês. Porque da mesma maneira que eu peço, vocês também pedem; da mesma maneira que eu canto alto, vocês cantam ainda mais alto. E não parem de cantar jamais, porque eu quero ouvir vocês. Obrigado por terem saído de casa e estarem aqui hoje. Espero estar atendendo às expectativas de vocês. Tenho um pouco mais de 8 anos de carreira, e morro de orgulho do que eu construí. O dia da audição [de “Memórias Póstumas”] foi um dos mais estranhos da minha vida. Eu não tinha me dado conta que ia ter que reviver coisas tão íntimas, fosse cantando as músicas, fosse questionado por jornalistas. E isso começou a ficar muito pesado pra mim. Mas espero que isso mude hoje à noite”, comentou Jão.
Apesar da turnê “Memórias Póstumas” ter o objetivo principal de promover o álbum homônimo de Jão, o cantor também aproveitou o embalo para reiterar sua essência enquanto artista e pessoa. Durante a performance de “Meninos e Meninas”, que por si só já celebra a bissexualidade, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) apareceu como convidada surpresa, exaltando a comunidade LGBTQIAP+ e a arte enquanto forma de resistência; momento que gerou manifestações extasiadas por parte do público, inclusive com um grande coro de leques. Além disso, por mais que as composições de seu 5º álbum de estúdio sejam mais introspectivas e mostrem um maior amadurecimento de Jão enquanto artista (vide “Coincidências” e “Curioso”), o cantor também não deixou de incluir no repertório da noite músicas que o consagraram como um dos maiores artistas pop do Brasil, como “Idiota” e “Me Lambe”; esta última destacando-se ainda por começar com uma versão “stripped”, que seria aplicada ainda nas performances mais acústicas de “Rádio” e “Locadora”.
Se a noite foi marcada essencialmente por um clima intimista, o último ato do show de Jão trouxe ainda um clima de comunhão para fechar a noite. Considerando que o álbum “Memórias Póstumas” foi o resultado de um processo de cura diante do luto e da perda de entes queridos, Jão mostrou que, apesar das adversidades da vida às quais nenhum de nós escapa ileso, é possível encontrar formas de se reerguer e seguir em frente: seja pelo amor das pessoas queridas que nos cercam (como nas performances de “O Amor” e “Passeios Noturnos”, esta marcada ainda por um momento bastante divertido em que o cantor dançou ao lado de Isabel Teixeira debaixo de uma pequena chuva causada pelos irrigadores); seja por meio da fé (como se deu pela sequência um tanto quanto eclesiástica de “Religião”, “Santo” e “Catedral”, sendo esta iluminada pelas luzes amarelas das pulseiras como velas em uma Igreja); seja por meio da arte, que fornece o alívio e o refúgio necessários para eternizar nossas memórias (até que se tornem póstumas).





